...Bangladesh... O som chegou-me aos ouvidos meio truncado. Saí daquele sono leve e reconfortante, embalado pela garoa que batia nos vidros do ônibus, e fui à procura da voz.
... I am from Bangladesh - dizia o homem. I am afraid... Repetia as duas frases como se decorasse um monólogo. Ocupava um dos primeiros bancos. Os poucos turistas alemães à sua volta também haviam levantado o pescoço para ver de onde partia a lamúria mas, agora, continuavam apreciando a paisagem. Naquele ponto do percurso, o Coliseu.
Minha viagem estava no início ou no fim? Não saberia dizer. Minha casa havia ficado para trás há dois, três meses, quem sabe, e eu vinha atravessando pontes e vales, montanhas e mares, metrópoles e aldeias. Tinha começado o percurso com Jorge, parceiro de vida há tantos anos. Andávamos, ríamos, bebíamos, nos amávamos. Seguimos essa rotina em Amsterdã, Atenas, Marselha, Gênova. Quando a discussão começou, estávamos chegando a Paris. À primeira vista, era mais um dos nossos desentendimentos normais – é muita bebida, é pouca, aquela mulher está flertando com você, não, é você que está olhando para aquele homem. Mas, ao invés de nos enfeitiçar e apaziguar nossas rusgas, a cidade maquinou sua vingança. O azul do céu deu lugar a um cinza chumbo que descarregou sobre nós as águas do dilúvio e nos encerrou entre quatro paredes. Cerceados, nossas verdades vieram à tona e nenhum de nós gostou de ouvi-las. Nós nos agredimos primeiro com palavras. Quando quebrei meu copo de vinho na mão e avancei sobre seu rosto com os cacos, ele reagiu com um soco. E, enquanto eu urrava de dor sobre o tapete, ele arrumou sua bagagem e partiu.
Depois que ele se foi, o sol se abriu. Nem senti a mudança. Tranquei-me naquele quarto de hotel e fui esvaziando as garrafas de vinho que nos fariam companhia durante aquele período. Em torpor permanente, nem me dei conta de quando era noite ou dia. Minha escuridão só deu lugar à luz quando uma das camareiras abriu a porta com a chave mestra para ver se aquela estranha hóspede estava viva ou morta.
Tomei um banho longo, fiz uma mala pequena, acertei as contas e saí pela cidade a esmo. Andei horas e horas junto ao Sena, as lágrimas levando a maquiagem que tentava esconder minhas dores. Entrei em um trem e só agora, ouvindo as lamúrias daquele indiano, me dei conta de que estava em Roma. E que a chuva, que me açoitava em Paris, continuava me castigando.
... Bangladesh... I am from Bangladesh… I am afraid. O homem continuava em seu lugar, os olhos fixos em um ponto qualquer que poderia ser a Via Condotti ou a Piazza Navona. Enxuguei as lágrimas, levantei-me da poltrona e fui sentar-me ao seu lado. Ele nem se deu conta do meu abraço.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
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