Nossos Escritos

...

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

A penúltima aventura

A filha pede a ajuda dos anjos e santos em intermináveis novenas, o filho mais velho a ameaça de interdição, o do meio diz que vai espalhar para o mundo que a mãe ficou louca. Ela faz de conta que escuta mas, quando fica sozinha em casa, pega o telefone e marca um novo encontro para o dia seguinte.

Levanta cedo, que com a idade o sono demasiado mais lembra a chegada da morte, faz suas orações, beija escapulários e santinhos . Desce as escadas que levam ao térreo e toma o café da manhã na cozinha de azulejo azul . Lava a pouca louça que sujou, dá uma espiada no jornal do dia, detendo-se um pouco mais nas noticias de crimes e de artistas, coloca água nas plantas e sobe com dificuldade os degráus que a levam ao quarto. Derrama lágrimas de saudade quando estende a colcha sobre a cama de casal. O marido, que posa compenetrado no porta-retratos da cabeceira, morreu depois de mais de sessenta anos de vida em comum. Não há uma manhã, nesses dois anos de ausência, em que ela não chore o companheiro.

Há tempo para tudo, as horas passam devagar, e ela, junto à penteadeira, coloca nos cabelos brancos e ralos alguns rolinhos que é para dar forma ao penteado. É vaidosa. Do guarda-roupa, que conserva sempre arrumado, retira um dos vestidos mais novos, o estampado em tons de azul. Estende sobre a cama e coloca ao lado a caixa com os sapatos brancos e a bolsa nova que ganhou da filha no último Natal. Então, desce as escadas mais uma vez se apoiando no corrimão e prepara o almoço, refeição que faz solitária na sala de jantar de móveis escuros e pesados que a acompanham desde o casamento.

Às duas da tarde, ela já está vestida. Junto ao espelho do banheiro, solta os cabelos, ajeita com as mãos e borrifa sobre eles uma nuvem de spray. Passa no rosto uma camada de pó, um nadinha de sombra azul nos olhos, um pouco de blush para afastar a palidez e capricha no batom escuro. De volta ao quarto, escolhe um dos perfumes que enfeitam a cômoda e passa uma gotinha atrás de cada orelha. É bela a imagem que ela vê no espelho. Beija a foto do marido, desce as escadas mais uma vez e, ao telefone, transmite a mensagem: - estou saindo.


Quem a espera na esquina é Alice, a amiga de tantos anos e de tantas histórias em comum. Abraçam-se carinhosamente, trocam elogios - esse vestido eu não conheço, é o novo? - e dirigem-se para o ponto do ônibus.

- Perdizes não, nós já estivemos lá mais de dez vezes.

- Santo Amaro de novo? Já conhecemos bem...

- Olha, se chegar o M Boi Mirim ou o Parelheiros a gente embarca. Para esses lugares a gente nunca foi.

Sobem no ônibus com cuidado, dão um boa tarde amável para o motorista , sentam-se num dos primeiros bancos e iniciam o passeio.

- A saída de ontem deu problema ? - pergunta Alice.

- Os meninos sempre ficam preocupados, você sabe, dizem que aos 86 anos eu tenho que me cuidar. Agora, me deram um ultimato: - “se quiser passear que vá ao shopping, ou vamos trancar o portão para a senhora não sair mais”.

- E você, o que respondeu?

- Eu? Nada, só dei risada...
Eliana Pace

Nenhum comentário:

Postar um comentário