Não saberia dizer, exatamente, como e quando ele apareceu no prédio. Ou foi muito discreto na mudança, ou chegou ao apartamento sem qualquer bagagem. O fato é que só descobri sua existência uma manhã, quando me preparava para levar uma amiga ao aeroporto. Ele ouviu nossa conversa e foi participando dela de forma bastante simpática: - Vai embarcar para o Rio, é? Cheguei de lá ontem, fui a trabalho, que bela terra...
Em outra ocasião, nos encontramos na entrada do prédio. Ele parecia estar chegando do trabalho, terminava uma ligação ao celular e quando desligou fez questão de contar a conversa que havia tido até aquele momento: - Veja a folga do meu pai, se deliciando na piscina da fazenda a uma hora dessas enquanto fico por aqui me matando. Mas este fim de semana, sem falta, estarei lá.
Parecia ter não apenas bom berço mas também bela grana: viagens ao Rio, fazenda, piscina. Algum tempo depois, fui observando que a esses valores, digamos, materiais, se somavam outros afetivos: uma jovem e bonita mulher e dois meninos pequenos, gêmeos, que , em visita ao pai, brincaram com meu cachorro. - Adoram animais... Ainda bem que na fazenda podem brincar à vontade com eles. Deduzi então que a família morava longe de São Paulo e ele, por conta dos negócios, ficava no apartamento durante a semana.
Aos poucos, comecei a estranhar seu jeito. Um dia, me cumprimentava. No outro, calado, me ignorava ou me fazia um gesto vago. Cheguei a pensar que havia perdido o emprego ao me dar conta que não usava mais os ternos bem cortados com os quais se exibia todas as manhãs. Um sábado, nos encontramos no elevador, ele sonado, uma bermuda amarfanhada, os cabelos desalinhados, como que a sair da cama direto para a rua. Achei até mesmo normal que nos fins de semana ele quisesse dar um tempo nas roupas, no visual, mas quando esse comportamento começou a se repetir a qualquer horário, durante a semana, notei que ele estava, de fato, muito mal. Até porque, mal se abria o portão, ele saía em disparada para o bar da esquina.
- Você viu? Bebe o tempo todo, desde cedo. Que café da manhã que nada, é o primeiro gole do dia... Só pára quando desaba...
- Observe as mãos. Quando estão fechadas, como garras, pode apostar: bebeu todas.
Não me dei conta em quanto tempo aquele aquele homem falante e simpático, que no início cumprimentava a todos no elevador, deu lugar a um doente, o olhar perdido em paragens distantes, talvez. Não raro, em sua trajetória diária para o boteco, funcionários do prédio o acompanhavam de longe, a postos para um socorro imediato.
- Foi internado de novo, que sina... O pai também bebia assim quando morava aqui no prédio, vivia mais tempo internado do que sóbrio... E olha que dinheiro não falta para tratamento...
- Tenho pena é da mulher, dos filhos pequenos, que loucura... A família não veio mais vê-lo, parece que a esposa pediu a separação, não quer que as crianças vejam o pai desse jeito...
- Agora, arranjaram uma empregada para tomar conta dele, querem que ela tente segurá-lo dentro do apartamento, imagina. O que mais se vê por aqui é ela correndo com ele para o hospital mais próximo..
De dois meses para cá há um novo cachorro no prédio. Não chegou discretamente como o dono porque chora dia e noite sem parar, infernizando a vida dos moradores a tal ponto que já pediram a seu proprietário uma solução. Por volta das seis horas da tarde, desce para o pátio com a empregada, uma mulher de pouquíssimas palavras que não se diverte com o programa e mais parece cumprir uma missão . Não brinca com o cachorro, não o liberta da coleira, afasta o animal do convívio com os outros. Cronometra quinze minutos no relógio e o arrasta de volta para o apartamento.
Seu dono, quando encontra algum dos moradores, até que tenta uma política de boa vizinhança por causa do animal. Está sempre se desculpando: - Me deram um cachorro de presente, você já viu? Só que ele chora o tempo todo... não sei mais o que fazer. Agora comprei um ursinho de pelúcia e enquanto ele acha que o brinquedo é seu filho ou irmão, sossega um pouco... Se você ouvir um bichinho chorando, pode ter certeza que é o meu...
Ontem, houve um movimento estranho no prédio. A família veio a São Paulo especialmente para acudí - lo depois que um dos porteiros do prédio acionou o síndico . No domingo, por volta das cinco horas da manhã, o morador saiu, ainda em pijamas, uma garrafa de bebida embaixo do braço, o cachorrinho na coleira. Avisou que ia caminhar, fazer exercício com o animal. Voltaram tarde da noite, bastante machucados, ele e o cão.
Uma ambulância foi chamada e enquanto transportavam o vizinho para o hospital, o animal desapareceu. Os porteiros juram que para a rua ele não foi, que os portões estão sempre trancados. Acredita-se que esteja pelo prédio, mais exatamente na casa de algum morador preocupado com sua sorte. A má noticia é que, até agora, ninguém apareceu para dizer - está comigo, eu cuido dele - talvez com receio de ter que devolvê-lo ao verdadeiro dono. A boa é que ele deve estar sendo tão bem tratado que desde a confusão não se ouve um único choramingo do cão.
O dono da Lola, aquele Daschaund simpática, diz que ele talvez tenha sido adotado por aquela senhora meio sinistra que tem o Monet. A mocinha que não se separa da Vênus diz que viu o cãozinho brincando com a Brigitta, a whippet do 7. andar. Cuja dona garante saber de fonte segura que ele está é fazendo companhia para o Horácio. Eu mesma, outro dia, encontrei na porta do apartamento da Cindy um ursinho de pelúcia. De todo modo, quem tem cachorro no prédio já firmou um pacto: para o bêbado, o Kiko não volta nunca mais.
Eliana
segunda-feira, 28 de setembro de 2009
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Muito interessante o texto!
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