De verdade, pessoa feliz podia ser mesmo comprada. Em supermercado, mercearia, feira livre, lojas de conveniência. Se compraria gente feliz por quilo ou por unidade. Uma, duas, quatro, cinco dúzias de pessoas rindo a toa, de bem com a vida. Comparação? Nem em sonho. Ninguém seria mais feliz do que ninguém. Todos com o mesmíssimo grau de felicidade.
Para adquirir gente feliz era coisa muito simples, só colocar no carrinho junto com arroz, macarrão, feijão, carne moída, Activia e o que mais permitisse o bolso, claro. Cenoura, batata, limão, essas coisas, pesava direto no caixa, a exemplo das pessoas felizes. Aliás como tudo agora é vale quanto pesa, já que dúzia não existe mais, devia haver um medidor específico de gente feliz que, claro, descartaria de antemão os mau humorados.
No sábado, comprei na feira meia dúzia de laranja. Confesso, me senti muquirana ao pagar um real e cinqüenta ao moço da banca. Compra seis, leva oito bradou o vendedor afoito, quase rouco por repetir o incansável argumento. Coisas de feira. Sempre gostei delas, mesmo quando era obrigada a comprar para a família inteira. Nunca reclamei do ir. Chuva ou sol, lá estava eu, as voltas com as verduras, os legumes e as frutas. Toda vez que sobrava troco, enganava minha mãe. Comia escondido doce de feijão na banca do japonês. Era a recompensa pelo sacrifício de carregar compras pesadas naquelas mãos forçadas, numa infância que parece ter ido embora antes do tempo. Nunca tive carrinho de feira, nem carreto, peguei no pesado, mas confesso também fui feliz na feira.
Certa feita quando cuidava dos meus irmãos mais novos , levei no colo, o mais velho que não tinha um ano de vida ainda, usava fraldas. Para os dois mais novos liguei a televisão em casa. A ordem lembrava um general em campo de batalha, para que não saíssem na rua. Meus pais sequer imaginaram a logística da infância pra cuidar dos rebentos. Eram tempos difíceis, mas cheios de serenidade, sobretudo pelos milagres de cada dia. Quando já estava na rua de casa, de volta com o menino no braço e sacolas no outro, notei que havia esquecido a alface. Pedi ao dono da farmácia para deixar meu irmão ali sentado. Era questão de minutos. E Assim foi.
Quando voltava da feira, vi que um menino vinha em minha direção. Era a criança que deixei no banco da drogaria. Aqueles eram seus primeiros passos. Ele começava a andar. Cambaleava e ria. Cachinhos louros e embaraçados ao vento cravaram em mim um sentimento de absoluta singularidade que jamais esqueci. Só tive naquele momento braços e abraços para aquela criança, um acolhimento que a vida não me permitiu sentir de um filho legítimo. Esse irmão hoje é homem formado, engenheiro químico e também já é pai. Outro dia, diz ele que viu os primeiros dentes do filho, nem lembrei de perguntar se foi na feira.
Por essas e outras, insisto que feira é lugar de gente feliz. É onde se come pastel, se encontra amigos, conhecidos, compra flores, ri de vendedores engraçados. Mulher bonita não paga, mas também não leva. Apesar da expressão comum, caio na gargalhada. Percebo que a dona de casa que examina os tomates também ri. Experimento as frutas pelas cores, uma mais saborosa que a outra, nem por isso elas se dizem, ou se sentem melhores que as outras. São o que são. Nem mais, nem menos. Bom seria se gente fosse assim, sem comparação, até porque, Pablo Neruda também falou que de vez em quando é feliz. Li hoje na sua poesia.
MALU MOTA - 14.10.2008
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