Os perfumes do final do inverno retocam meu olfato, suspendem a pressa. Me deixam enxergar a vida mais lenta. Pelo cheiro, no rastro, posso caminhar no final de tarde já escuro. Andar no calor da noite pra sentir o cheiro das damas. Penso em cada uma. Nas flores e nas mulheres. Algumas vivem para o seu homem. Quantas são hoje? Contá-las é quase um grito escondido. A umas, Deus quer na rotina de um sábado inteiro no salão de beleza. Á outras, ele destina as incansáveis compras de supermercado para o almoço de domingo. Algumas fazem consumir o que vida a dois, não dá conta. Todas elas com seu peso leve ou pesado.
Quase não reconheço aquela senhora. Sua cor se confunde com a noite. Paralisada ali naquele pedaço vago de rua, por horas a fio, ela mistura em mim desconforto e curiosidade. Desatenção ali não cabe mais. Observo seu aspecto franzino, de quem há muito, não toma banho ou se senta à mesa de jantar. Os lábios inferiores, ressecados que só, escapam da máscara branca que ela usa na boca. Calar o quê? eu me pergunto. Nada a fazer, nada a pedir, nem reclamar. A vitória pra quem vive na rua, talvez seja não morrer por mais um dia.
Certa vez, a vi sentada na calçada. Escrevia sem parar, tinha na mão uma caneta laranja que deslizava de uma linha a outra em tom frenético. O caderno em branco exibia sinais amarelados pelo tempo. Por quantos anos aqueles pertences tão socados, sem outro destino além do frio das calçadas? O perfume não exala o bálsamo. O odor fica pior. O que cheira mais? Quem fede menos? Fétida ferida que nem assim retira aquela dama inerte da escuridão do inverno. Falta-lhe caridade, sobram suposições e compaixão. Deixo machucar em mim. Não lembro mais onde ficou perdida a minha indignação. Penso nela.
Penso em todas as mulheres. Coloco-as no mesmo saco, um saco que pode ser da mendiga que perde ou pede a vida, do recepiente de onde sai miséria e crenças, onde se vende sonhos e colhe-se expectativas, onde se vive dias mais ou menos ou cheios de ilusão, como na euforia inegável da noiva que cruza as alamedas nos jardins. Vejo ali uma mulher feliz, no contraponto das cicatrizes de outras, sinto o tormento ainda de quem procura um próximo, a quem se elege pra dar conta da gente. Não só pra tirar da rua, da casa da mãe ou da solidão a dois.
Observo o plural de desejos intermitentes da vida junto e separado. Vida largada, em paralelo, na transversal ou na perpendicular dos afetos, da vaidade de quem se cuida, ou do desassossego de todos nós. O homem não está só. Na incontinência da escolha o ciclo se cumpre no inverno que segue numa noite linda.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
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