segunda-feira, 28 de setembro de 2009
O Pacto
Em outra ocasião, nos encontramos na entrada do prédio. Ele parecia estar chegando do trabalho, terminava uma ligação ao celular e quando desligou fez questão de contar a conversa que havia tido até aquele momento: - Veja a folga do meu pai, se deliciando na piscina da fazenda a uma hora dessas enquanto fico por aqui me matando. Mas este fim de semana, sem falta, estarei lá.
Parecia ter não apenas bom berço mas também bela grana: viagens ao Rio, fazenda, piscina. Algum tempo depois, fui observando que a esses valores, digamos, materiais, se somavam outros afetivos: uma jovem e bonita mulher e dois meninos pequenos, gêmeos, que , em visita ao pai, brincaram com meu cachorro. - Adoram animais... Ainda bem que na fazenda podem brincar à vontade com eles. Deduzi então que a família morava longe de São Paulo e ele, por conta dos negócios, ficava no apartamento durante a semana.
Aos poucos, comecei a estranhar seu jeito. Um dia, me cumprimentava. No outro, calado, me ignorava ou me fazia um gesto vago. Cheguei a pensar que havia perdido o emprego ao me dar conta que não usava mais os ternos bem cortados com os quais se exibia todas as manhãs. Um sábado, nos encontramos no elevador, ele sonado, uma bermuda amarfanhada, os cabelos desalinhados, como que a sair da cama direto para a rua. Achei até mesmo normal que nos fins de semana ele quisesse dar um tempo nas roupas, no visual, mas quando esse comportamento começou a se repetir a qualquer horário, durante a semana, notei que ele estava, de fato, muito mal. Até porque, mal se abria o portão, ele saía em disparada para o bar da esquina.
- Você viu? Bebe o tempo todo, desde cedo. Que café da manhã que nada, é o primeiro gole do dia... Só pára quando desaba...
- Observe as mãos. Quando estão fechadas, como garras, pode apostar: bebeu todas.
Não me dei conta em quanto tempo aquele aquele homem falante e simpático, que no início cumprimentava a todos no elevador, deu lugar a um doente, o olhar perdido em paragens distantes, talvez. Não raro, em sua trajetória diária para o boteco, funcionários do prédio o acompanhavam de longe, a postos para um socorro imediato.
- Foi internado de novo, que sina... O pai também bebia assim quando morava aqui no prédio, vivia mais tempo internado do que sóbrio... E olha que dinheiro não falta para tratamento...
- Tenho pena é da mulher, dos filhos pequenos, que loucura... A família não veio mais vê-lo, parece que a esposa pediu a separação, não quer que as crianças vejam o pai desse jeito...
- Agora, arranjaram uma empregada para tomar conta dele, querem que ela tente segurá-lo dentro do apartamento, imagina. O que mais se vê por aqui é ela correndo com ele para o hospital mais próximo..
De dois meses para cá há um novo cachorro no prédio. Não chegou discretamente como o dono porque chora dia e noite sem parar, infernizando a vida dos moradores a tal ponto que já pediram a seu proprietário uma solução. Por volta das seis horas da tarde, desce para o pátio com a empregada, uma mulher de pouquíssimas palavras que não se diverte com o programa e mais parece cumprir uma missão . Não brinca com o cachorro, não o liberta da coleira, afasta o animal do convívio com os outros. Cronometra quinze minutos no relógio e o arrasta de volta para o apartamento.
Seu dono, quando encontra algum dos moradores, até que tenta uma política de boa vizinhança por causa do animal. Está sempre se desculpando: - Me deram um cachorro de presente, você já viu? Só que ele chora o tempo todo... não sei mais o que fazer. Agora comprei um ursinho de pelúcia e enquanto ele acha que o brinquedo é seu filho ou irmão, sossega um pouco... Se você ouvir um bichinho chorando, pode ter certeza que é o meu...
Ontem, houve um movimento estranho no prédio. A família veio a São Paulo especialmente para acudí - lo depois que um dos porteiros do prédio acionou o síndico . No domingo, por volta das cinco horas da manhã, o morador saiu, ainda em pijamas, uma garrafa de bebida embaixo do braço, o cachorrinho na coleira. Avisou que ia caminhar, fazer exercício com o animal. Voltaram tarde da noite, bastante machucados, ele e o cão.
Uma ambulância foi chamada e enquanto transportavam o vizinho para o hospital, o animal desapareceu. Os porteiros juram que para a rua ele não foi, que os portões estão sempre trancados. Acredita-se que esteja pelo prédio, mais exatamente na casa de algum morador preocupado com sua sorte. A má noticia é que, até agora, ninguém apareceu para dizer - está comigo, eu cuido dele - talvez com receio de ter que devolvê-lo ao verdadeiro dono. A boa é que ele deve estar sendo tão bem tratado que desde a confusão não se ouve um único choramingo do cão.
O dono da Lola, aquele Daschaund simpática, diz que ele talvez tenha sido adotado por aquela senhora meio sinistra que tem o Monet. A mocinha que não se separa da Vênus diz que viu o cãozinho brincando com a Brigitta, a whippet do 7. andar. Cuja dona garante saber de fonte segura que ele está é fazendo companhia para o Horácio. Eu mesma, outro dia, encontrei na porta do apartamento da Cindy um ursinho de pelúcia. De todo modo, quem tem cachorro no prédio já firmou um pacto: para o bêbado, o Kiko não volta nunca mais.
Eliana
terça-feira, 15 de setembro de 2009
POETA QUE FALOU
De verdade, pessoa feliz podia ser mesmo comprada. Em supermercado, mercearia, feira livre, lojas de conveniência. Se compraria gente feliz por quilo ou por unidade. Uma, duas, quatro, cinco dúzias de pessoas rindo a toa, de bem com a vida. Comparação? Nem em sonho. Ninguém seria mais feliz do que ninguém. Todos com o mesmíssimo grau de felicidade.
Para adquirir gente feliz era coisa muito simples, só colocar no carrinho junto com arroz, macarrão, feijão, carne moída, Activia e o que mais permitisse o bolso, claro. Cenoura, batata, limão, essas coisas, pesava direto no caixa, a exemplo das pessoas felizes. Aliás como tudo agora é vale quanto pesa, já que dúzia não existe mais, devia haver um medidor específico de gente feliz que, claro, descartaria de antemão os mau humorados.
No sábado, comprei na feira meia dúzia de laranja. Confesso, me senti muquirana ao pagar um real e cinqüenta ao moço da banca. Compra seis, leva oito bradou o vendedor afoito, quase rouco por repetir o incansável argumento. Coisas de feira. Sempre gostei delas, mesmo quando era obrigada a comprar para a família inteira. Nunca reclamei do ir. Chuva ou sol, lá estava eu, as voltas com as verduras, os legumes e as frutas. Toda vez que sobrava troco, enganava minha mãe. Comia escondido doce de feijão na banca do japonês. Era a recompensa pelo sacrifício de carregar compras pesadas naquelas mãos forçadas, numa infância que parece ter ido embora antes do tempo. Nunca tive carrinho de feira, nem carreto, peguei no pesado, mas confesso também fui feliz na feira.
Certa feita quando cuidava dos meus irmãos mais novos , levei no colo, o mais velho que não tinha um ano de vida ainda, usava fraldas. Para os dois mais novos liguei a televisão em casa. A ordem lembrava um general em campo de batalha, para que não saíssem na rua. Meus pais sequer imaginaram a logística da infância pra cuidar dos rebentos. Eram tempos difíceis, mas cheios de serenidade, sobretudo pelos milagres de cada dia. Quando já estava na rua de casa, de volta com o menino no braço e sacolas no outro, notei que havia esquecido a alface. Pedi ao dono da farmácia para deixar meu irmão ali sentado. Era questão de minutos. E Assim foi.
Quando voltava da feira, vi que um menino vinha em minha direção. Era a criança que deixei no banco da drogaria. Aqueles eram seus primeiros passos. Ele começava a andar. Cambaleava e ria. Cachinhos louros e embaraçados ao vento cravaram em mim um sentimento de absoluta singularidade que jamais esqueci. Só tive naquele momento braços e abraços para aquela criança, um acolhimento que a vida não me permitiu sentir de um filho legítimo. Esse irmão hoje é homem formado, engenheiro químico e também já é pai. Outro dia, diz ele que viu os primeiros dentes do filho, nem lembrei de perguntar se foi na feira.
Por essas e outras, insisto que feira é lugar de gente feliz. É onde se come pastel, se encontra amigos, conhecidos, compra flores, ri de vendedores engraçados. Mulher bonita não paga, mas também não leva. Apesar da expressão comum, caio na gargalhada. Percebo que a dona de casa que examina os tomates também ri. Experimento as frutas pelas cores, uma mais saborosa que a outra, nem por isso elas se dizem, ou se sentem melhores que as outras. São o que são. Nem mais, nem menos. Bom seria se gente fosse assim, sem comparação, até porque, Pablo Neruda também falou que de vez em quando é feliz. Li hoje na sua poesia.
terça-feira, 8 de setembro de 2009
O Cheiro do Faro
Quase não reconheço aquela senhora. Sua cor se confunde com a noite. Paralisada ali naquele pedaço vago de rua, por horas a fio, ela mistura em mim desconforto e curiosidade. Desatenção ali não cabe mais. Observo seu aspecto franzino, de quem há muito, não toma banho ou se senta à mesa de jantar. Os lábios inferiores, ressecados que só, escapam da máscara branca que ela usa na boca. Calar o quê? eu me pergunto. Nada a fazer, nada a pedir, nem reclamar. A vitória pra quem vive na rua, talvez seja não morrer por mais um dia.
Certa vez, a vi sentada na calçada. Escrevia sem parar, tinha na mão uma caneta laranja que deslizava de uma linha a outra em tom frenético. O caderno em branco exibia sinais amarelados pelo tempo. Por quantos anos aqueles pertences tão socados, sem outro destino além do frio das calçadas? O perfume não exala o bálsamo. O odor fica pior. O que cheira mais? Quem fede menos? Fétida ferida que nem assim retira aquela dama inerte da escuridão do inverno. Falta-lhe caridade, sobram suposições e compaixão. Deixo machucar em mim. Não lembro mais onde ficou perdida a minha indignação. Penso nela.
Penso em todas as mulheres. Coloco-as no mesmo saco, um saco que pode ser da mendiga que perde ou pede a vida, do recepiente de onde sai miséria e crenças, onde se vende sonhos e colhe-se expectativas, onde se vive dias mais ou menos ou cheios de ilusão, como na euforia inegável da noiva que cruza as alamedas nos jardins. Vejo ali uma mulher feliz, no contraponto das cicatrizes de outras, sinto o tormento ainda de quem procura um próximo, a quem se elege pra dar conta da gente. Não só pra tirar da rua, da casa da mãe ou da solidão a dois.
Observo o plural de desejos intermitentes da vida junto e separado. Vida largada, em paralelo, na transversal ou na perpendicular dos afetos, da vaidade de quem se cuida, ou do desassossego de todos nós. O homem não está só. Na incontinência da escolha o ciclo se cumpre no inverno que segue numa noite linda.
domingo, 6 de setembro de 2009
Perdas e Ganhos
Incomodada ficava sua mãe. Agora tenho raiva. Estou de TPM e das bravas. Imperam sinais em mim de um movimento que se agiganta. Quero chorar. Antes, vem o desconforto. Esquenta. E o sangue. Sangue meu, por onde tu segues? Onde vais? Por onde trafegas? O que queres tu de mim? Deságuas onde?
Estou sólida, no ar desponto, sem ninguém para ajudar a eliminar o que escapa. No lar mais íntimo algo dilacera, urge que saia. Existe premência. Lembra e lembro do aborto. Entre abusos, absurdos não consigo conter a insatisfação. Uma mancha. O canal em conta- gotas. Não estou menstruada. São palavras, sílabas, letras, expressões, doidas para serem lidas em voz alta ou vai ver bem guardadas, quietinhas, no silêncio da estante. A escritora grita.
segunda-feira, 10 de agosto de 2009
CARNAVAL DE CORES DESBOTADAS
Conchas de ouvir
Colchas de dormir.
Atrás do trio elétrico,
Só não foi quem partiu ou
Deixou diminuir
O que já estava abaixo
Da linha da pobreza.
Recuo da bateria
Não dava pra ser inteira.
A parideira não foi,
Porque também não dava conta.
As cores sem vida.
Aponta a ressaca
O aporte de valores
Aporta a conta.
Os ajustes,
Dor indolor.
Faltou o sabor
Sempre falta.
Incompletude
A atitude no limite para
Suportar sapatos trocados.
Virado, a mãe morre.
Morremos nós
Na insensatez
De ser socado,
Abafado,
Sem gritos.
Malu – 24.02.2009
TRILOGIA ‘AMORES PERFEITOS”:AVENTURA,PAIXÃO, DESAMOR
Pela forma como ele coloca a chave na porta, ela pressente o porre - bebeu, mais uma vez. Conta até três, junta o dedo médio ao indicador para controlar a irritação mas não consegue se segurar quando ele entra em casa, a sobrancelha arqueada, o cheiro de uísque...
- Saí com o pessoal da empresa, nem deu prá avisar... já jantei e você?
O jantar fora é o de menos, pode representar até um alivio em certas ocasiões. O pior é agüentar o sexo forçado,o sono pesado, o ronco... Não dá mais para disfarçar, essa união chegou ao fim. As fotos recentes aí estão, a documentar como estão tristes, um ao lado do outro. Quatro anos apenas de união e ela se dá conta que, felizmente, não vai durar até que a morte os separe. Tenta voltar o pensamento ao passado, quer lembrar o que a atraiu nesse homem, mas em vão. Agora, é pensar na melhor forma de chegar a ele e dizer: - não dá mais, acabou, vamos parar por aqui...
Ele faz promessas. Vai parar de beber, vai se fixar num emprego, vai ganhar mais, vai procurar uma terapia, vai fazê-la feliz Ela quer acreditar, dá um tempo, mas quando ele chega da análise e, com arrogância, diz que a psicanalista não encontrou nada de anormal em seu comportamento, ela percebe que então quem tem problemas é ela, por querer acreditar no amor eterno, na importância da família, na cumplicidade, nos objetivos de vida.
- Quero férias conjugais- ela arrisca numa noite em que, aparentemente, ele está sóbrio.
Ele disfarça o mal estar, tenta um carinho, força um beijo, refaz as promessas. Ela olha o companheiro com pena mas permanece irredutível.
- É melhor assim, vamos nos dar um tempo. Dois meses, que tal?
Ele choraminga mais um pouco, alega não ter nem aonde ir, como vai ficar tudo, como é que os pais vão reagir, todos acham que eles estão numa boa, que ele tem um emprego fixo, que está longe da bebida. Ela é gentil. Arruma uma maleta para ele , se propõe a procurar um hotel, um flat, ele recusa, indignado, não, pode deixar que faz tudo sozinho.
Quando ele, enfim, sai, ela tranca a porta a sete chaves, tira o telefone do gancho, coloca no copo uma última dose de uísque que sobrou na garrafa e desaba...
TRILOGIA ‘AMORES PERFEITOS”:AVENTURA,PAIXÃO, DESAMOR
Viagem de negócios e logo na 6a feira? Ôba, pode deixar comigo...Ao Rio? Uuau, melhor ainda...O chefe merece um beijo, mas também respeito. Ela sai atarantada, tem que dar um jeito no cabelo, fazer as unhas, passar no banco, ligar para a amiga carioca para se enturmar em um programa divertido, os amigos dela são tão legais...
O Rio de Janeiro continua lindo, a reunião corre como se deve, sobram elogios à sua competência e então, já no hotel, ao telefone, ela combina com a amiga o que farão à noite. - Vamos jantar num lugar legal, depois dançar... Cláudio e Jorge estão disponíveis, vamos sair em quatro...
Nas apresentações, Cláudio e Jorge fazem gracinhas, elogios, um tenta carregá-la para seu carro, o outro quer impedir.No par ou impar, Cláudio leva a melhor e no restaurante da moda, um pé por baixo da mesa sinaliza a sedução. Na boate, Jorge e Regina entendem que estão demais, pagam a conta e saem de fininho. Cláudio faz a proposta indecente, ela aceita e os dois acabam a noite em um motel.
Volta a São Paulo encantada e a paixão corre fácil. São telefonemas diários, declarações, promessas de novos encontros, vem você, não, agora é sua vez, vou te buscar direto no aeroporto, quer jantar em algum lugar em especial ou no próprio motel ? Dormir com você a noite toda não vai dar, não posso dar bandeira lá em casa, minha mulher já está desconfiando de alguma coisa, me dá um tempo ...
Tudo bem na semana que vem... Tudo bem no mês que vem também... Tudo bem no ano que vem... Mas os encontros, antes tão intensos e imunes a qualquer problema, vão rareando e ela chora, se desespera, arma jogos de sedução, cobra uma decisão que nunca vem...
Ele enfim vem a São Paulo para definir a situação. Ela prepara um jantar romântico à luz de velas, veste uma roupa sensual, ataca de amante perfeita e, uma taça de champanhe na mão, aguarda a palavra final do amado: - vou me separar, não está dando mais, vamos ficar juntos, você não quer mudar para o Rio?
O discurso dele começa da mesma forma: - vou me separar, não está dando mais – e continua de forma ainda mais inesperada - você me fez ver que a vida é uma só, que a gente tem que embarcar de cabeça quando se apaixona, não se pode afastar a felicidade... Vim te dizer que reencontrei Marina, um amor do passado, ela já se separou do marido, agora é minha vez de dar entrada no divórcio. Vou largar o Rio, vamos morar em Recife...
As mãos formigam, ela vê tudo preto ao seu redor, o rosto amado ali, bem na sua frente, confessando seu amor por outra. Toma um último gole de champanhe, esmurra a mesa, derruba as velas, estilhaça a taça e avança com os cacos para Cláudio que, mais rápido, a segura pelos braços até que ela se acalme.
Acorda com o cheiro de café e o barulho do chuveiro aberto. Espera que Cláudio venha dar um bom dia carinhoso e desminta toda a declaração da noite anterior. Só se dá conta que ele partiu para sempre quando ouve a porta da rua se fechando vagarosamente...